O Direito de Não Acabar Um Livro

book

Em 2004, a frequentar o primeiro ano de Licenciatura em Línguas Estrangeiras Aplicadas, o professor de Português apresentou-nos Daniel Pennac e os seus Direitos Inalienáveis do Leitor, em Como um Romance. Ficou para sempre esta referência.

Dez anos depois exerci a custo o Direito de Não Acabar Um Livro. Sempre que me deparo com esta escolha entro em conflito. Parece-me uma fraqueza, estou a desistir. Não estou a cumprir uma tarefa. Sou uma preguiçosa.

Mas já chega. É domingo, está a chover, está frio, tenho a lareira acesa e o cobertor bem enrolado. E a única coisa que não me aquece? O livro que deveria estar ansiosa por terminar… Aos 28 anos achei que já tinha maturidade para atacar este escritor. Já ganhou todo o tipo de prémio, ninguém sequer se atreve a apontar nem uma vírgula. Lá comprei o livro, determinada, orgulhosa. Quando o comecei (há 2 meses!) houve logo ali algo que não me inspirou. Nessa mesma noite consegui abandoná-lo sem remorso e a minha mente deambulou, sem sequer regressar às palavras que tinha acabado de ler. Continuei a tentar e dividia as leituras com revistas e outros livros de contos.

Persisti mais um mês, lia devagarinho, a passo de aluno da 3ª classe. Tentei convencer-me de que iria chegar aquele momento em que tudo aquilo ia fazer sentido. Aquela ininterrupção de histórias totalmente desconexas, devaneios sem sentido e descrições que pouco ou nada me interessaram. Nada naqueles quotidianos me apelaram. Não houve uma única personagem que me despertasse a curiosidade.

E lá está. Se não dá, não dá. Há milhões de livros à minha espera. Lá marquei a página 245 e guardei-o na estante, talvez um dia aborrecido me dedique a ler as 100 que faltam. Mas não há-de ser agora. Senti a vergonha a falar-me do alto da estante. Olhei para ela e mostrei-lhe o livro que tinha nas mãos e pensei, se este também não funcionar, aí fico preocupada.

Mais de meia hora depois olhei de soslaio para a lombada ali pousada na estante e suspirei de alívio. O meu universo voltou a alinhar-se e aninhei-me quase abraçada ao meu novo livro.

Obrigada Daniel Pennac!

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.