A saúde mental não é moda

Agora que já passou uma semana e pouco depois do Dia Mundial da Saúde Mental, quem ainda se lembra de quando foi?

Este ano, replicaram-se as mensagens de figuras públicas, publicações e campanhas por todo o tipo de meios de comunicação. Creio que será talvez o segundo ano a ter tanto destaque na sociedade, também impulsionado pela atual pandemia que vivemos.

Contudo, não consigo deixar de pensar que às vezes estes dias se confundem com modas e passatempos. Quase como notícias rápidas. No dia, é tal o chorrilho de mensagens repetidas, que quase cansa e se perde o propósito e efeito.

A saúde mental é o começo de tudo. A saúde mental não tem nada de holístico, nem mítico, nem mágico. O ser humano precisa de estar bem psicologicamente para poder funcionar fisicamente. Está mais do que provado, não faltam estudos a demonstrá-lo e acredito sinceramente que até a pessoa mais desligada emocionalmente consiga compreender este conceito.

Daí a compreender a falta de saúde mental nos outros é outra história. Se por um lado não aprecio muito a abordagem totalmente espiritual ou religiosa à saúde mental, por outro também não a nego. O problema é quando as pessoas confundem tentativas e abordagens à saúde mental com distrações e vontades. O mindfulness, o ioga, o pilates, todo o tipo de religião, o amor à natureza, tudo isso são formas de procurar manter o bem-estar. As quais respeito, tentando sempre aprender e aplicar as que penso que melhor se poderão aplicar a mim e ao estilo de vida que defendo.

No entanto, não confundamos as coisas. A doença mental não é uma moda, nem uma vontade e muito menos uma desculpa para nada. Num mundo onde tudo se vive a mil e tudo se partilha…com milhões, como é que ainda não conseguimos dar espaço na sociedade para quem padece de doenças mentais incapacitantes e dilacerantes?

Os números revelados pela Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental (SPPSM) não mentem:

  • Mais de um quinto dos portugueses sofre de uma perturbação psiquiátrica (22,9%).
  • Portugal é o segundo país com a mais elevada prevalência de doenças psiquiátricas da Europa, sendo apenas ultrapassado pela Irlanda do Norte (23,1%).

Mas quantos destes não ignoramos e destratamos porque simplesmente dá demasiado trabalho, é demasiado incómodo ou até, como já ouvi, nos deita a nós abaixo?

Portanto, hoje que não é o dia da saúde mental, mas certamente será o dia de outra coisa qualquer importante, pratiquem a simples arte de sorrir e ouvir. Mandar aquela mensagem há meses guardada, fazer aquele telefonema que tira tempo da televisão. Ou, então, colocar as lentes da empatia e pensar em quantas pessoas à vossa volta hoje não estão a ser incrivelmente corajosas apenas e unicamente por se levantar da cama.

Se esse alguém são vocês, parabéns! Estão a dar o vosso melhor. E se hoje só conseguiram isso, já não é mau. Pequenos passos, pequenas conquistas. Peçam ajuda, mandem essa mensagem a dizer que não estão bem, o silêncio, o ignorar, o fechar os olhos nunca é solução, para nenhum dos lados.

Há que compreender que vivemos em sociedade e, em sociedade, as necessidades, vitórias e derrotas são recíprocas. Onde um beneficia, todos beneficiam. Nunca sabemos o que se passa do lado de lá, mas se tentarmos olhar mais para a luz e partilhar um pouco dessa luz a cada dia, de certeza que no dia em que a nós mesmos tudo nos parecer mais escuro, não estaremos sozinhos.

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