Diário de um Sonho IV

A primeira noite em Wahington D. C. foi passada quase em branco, com uma alergia terrível às picadas de mosquitos e com a cabeça imersa no deslumbre que é aquela cidade. Fez-me recordar a sensação que tive em Paris ou Milão. Cada uma ao seu próprio jeito, sente-se que estamos em solo quase sagrado, por onde se foi escrevendo, literalmente, a História destes seres pequeninos que somos. Ficar ali sobre a inscrição de “I Have a Dream” será sempre inesquecível! Acabei por me arrepender de passar pouco tempo na cidade, merecia mais um dia, pelo menos.

Quarta entrada – 15 de setembro de 2019

“Chegámos a Washington pelas 14h30, dia 11 de Setembro, à Union Station. É imponente chegar àquela estação tão majestosa e sair para ver o Capitólio ao fundo.

Sem saber, apanhámos uma onda de calor e a minha alergia às picadas de mosquito não prometia muito. O hotel que escolhi é para esquecer, mas cumpriu os três objetivos: camas enormes e confortáveis, ótima localização em Arlington, mesmo à porta da Lincoln Memorial Bridge, e foi barato!

Após deixar tudo prontinho no hotel, partimos à aventura e alugámos umas bicicletas. Em Washington eram 4$ mais baratas do que nas outras duas cidades! Foi muito bonito atravessar o Potomac River e ver tanto verde, apesar do trânsito.

Contornar o Lincoln Memorial encheu-nos de expectativa e ver o monumento é algo que nunca esquecerei. Ler os dois discursos à nação, olhar em frente e ver aquele enorme espelho de água, o Washington Monument, percebe-se bem a importância do local. O 2ª discurso do 16º Presidente dos EUA a 4 de março de 1865 já frisava que a guerra civil se devia à escravatura e à desigualdade, à luta pela supremacia. Ele alegava: “With malice towards none, with charity for all”. E a 28 de Agosto de 1963, Martin Luther King prosseguia a luta pelos Direitos Civis, proferindo dessa escadaria o seu eternizado discurso: “I Have a Dream”, na March on Washington For Jobs and Freedom.

Começar assim a visita a uma cidade enche-nos de coragem para lutar pelo que acreditamos. Veio a chuva, trovões, e prosseguimos pela Reflection Pool, através do Memorial à 2ª Guerra Mundial, até à Casa Branca, à distância. O ocupante atual não merece muito a dizer.

Seguimos pela Pennsylvania Avenue e acabámos por comer um dos melhores hambúrgueres de sempre, mesmo em frente ao National Archives. O b DC Penn Quarter merece ser lembrado! O meu trio de mini hambúrgueres e aquelas batatas fritas com queijo: que maravilha ao fim de um dia a pedalar debaixo de 39 graus!

No dia seguinte começámos exatamente aí, no edifício National Archives a ver ao vivo: a Declaração da Independência, a Constituição e a Carta dos Direitos dos EUA. Em 1776, “We hold these truths to be self evident, that all men are created equal, that they are endowed by their Creator with certain unalienable rights, that among these are life, liberty and the pursuit of happiness.” Em 1787 e em 1789, frisaram-se os direitos à liberdade de expressão, de imprensa e de religião. É por tudo isto que é um local de quase veneração, a Rotunda! O acervo de informação é tal que nos faz pensar: apenas 300 anos, mas houve sempre muito interesse em manter registos – talvez muito devido à influência de Inglaterra.

Após uma saladinha, alugámos uma trotinete e seguimos para o Capitólio. De novo, a sensação de estarmos no centro do mundo político é dominante. A tarde foi concluída no Smithsonian, muito interessante, o Museu de História Natural. Decidimos então explorar a zona mais comercial e é incrível, esta cidade é muito mais barata, mas extremamente limpa, cuidada, é um deleite passear pelas ruas. Curiosamente, passámos na Apple da Carneguie Library, uma loja num edifício bem antigo, com os seus mais de cem anos!

Entrámos e tropeçámos numa palestra informal com um ex-recluso, Halim A. Flowers. Um homem de 36 anos que foi condenado a duas sentenças de perpétua aos 16 anos!! Foi curioso, pois um mês antes de vir, vi o documentário sobre estes reclusos: meninos que foram julgados como adultos na Administração Reagan e que só em 2017 começaram a ser libertados por penas de mais de 20 anos em prisões de máxima segurança espalhadas por todo o país. É arrepiante presenciar a tranquilidade daquele homem. Está solto há apenas seis meses e tudo o que quer é amar e respeitar toda a gente. Espalhar a mensagem de que o problema não são as drogas, nem o racismo, nem a homofobia: é o medo de nos amarmos e amarmos o próximo.”

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