Diário de um Sonho XI

No estado do Novo México corremos o risco de ficar um pouco confusos e começar a pensar que estamos em pleno México. A paisagem é idêntica! E é fácil perceber o fascínio de todos os guias turísticos por Santa Fe, um pequeno oásis.

Estado de Novo México – 7 de outubro

Não é incrível como os dias passam e a vida se vai encaixando? Pouco a pouco.

Na maior parte dos dias, é difícil ver o caminho, perceber o porquê – tentar sequer reunir as forças para dar sentido a este nosso momento chega a ser esgotante.

Há alturas em que as horas começam a correr mal e parece que tudo vai descambar. Contudo, o segredo está em persistir.

Sentar, respirar e recomeçar: reunir as peças todas de volta, dar-lhes um carinho aqui e ali, dar-nos um desconto a nós e aos outros. Tentar mais delicadeza, mais paciência – esta é a palavra-chave.

O nosso dia hoje foi assim, atribulado. Depois de um final de dia glorioso em Santa Fe, esperávamos nada menos do que um ótimo dia para hoje. Santa Fe é um pequeno oásis no meio do deserto, repleto de galerias de arte com peças poderosas. Adorei os quadros de indígenas cada vez mais focados na sua força e originalidade, em vez de nas vestes e peças de bijuteria.

O ambiente é extremamente agradável mesmo sendo assumidamente uma cidade turística, com uma praça local adorável e uma arquitetura mexicana, com muito barro, que fica linda com a luz do entardecer. Ao jantar conhecemos Alex, um chef da Argélia, e a noite passou a voar, pois claro, a falar de bacalhau de mil maneiras.

Hoje, o plano era dedicar o dia a visitar Los Alamos, a cidade nascida do Projeto Manhattan, que criou a bomba atómica. Desde a minha impaciência, ao cansaço dele, passando por abelhas e vento a arruinar o almoço, a visita estava difícil. Mas já conhecedores do processo, soubemos parar e tentar inverter a corrente. Depois de um latte normal e outro de abóbora que finalmente me mostrou o porquê da loucura pela bebida, pudemos finalmente parar para respirar.

No final, pusemo-nos a caminho de Farmington e pelo caminho fomos brindados com aquele lago majestoso em plena planície com os canyons em pano de fundo. Foi absolutamente lindo. O silêncio, o odor fresco e as flores, foi tudo perfeito. Esta paisagem é tão imperfeita, vê-se tão bem o que a erosão transformou que é quase difícil acreditar. A rugosidade das rochas, a cor tijolo, a vastidão das planícies… Aqui não interessa o caminho, não interessa o ontem nem o amanhã. É aqui que estás e é o agora que conta.

Até o hotel escolhido à pressão saiu exatamente como precisávamos, bem merecido, depois do receio a conduzir à noite e a ver alces – alces! – ali mesmo à beirinha da estrada!

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