Ode às segundas-feiras

A segunda-feira tem péssima reputação. É universal, é um ódio de estimação da maior parte da população trabalhadora e estudantil e até dá o nome à sua própria depressão, monday blues, ou depressão de segunda-feira

Não é injusto. Não é desmerecido. A segunda-feira é uma dor e era totalmente dispensável. Porque não ter três dias de fim de semana? Este mundo está todo ao contrário e ainda ninguém percebeu que a receita é simplificar… Mas quem sou eu?

Pessoalmente, nunca me incomodei muito com a segunda-feira. Dependeu sempre muito da altura da vida, do trabalho, da fase em dito trabalho, de ter tido ou não um super domingo.

Há segundas e segundas

Mas quando o pior que te pode acontecer, acontece a uma segunda-feira, é impossível não me juntar à opinião geral. Quando tens uma memória tão perfeita do que era a tua vida antes e depois daquela segunda-feira… Quando te lembras perfeitamente de minutos antes da tragédia, teres um momento de concentração e entusiasmo, de quase meditação a pensar: “Tu consegues, mais uma semana para fazeres o que quiseres dela, vamos!” Quando a tua vida implode passados minutos, precisamente numa segunda-feira, não há como não odiar o dia.

E aí passas a querer ter poderes de viajar no tempo. Poderes de teletransporte, poderes de amnésia, poderes de tudo o que te possa fazer inverter a malfadada segunda-feira.

À medida que passam os meses, passamos à fase de dormência. Todos os dias são iguais, nem sabemos bem se terça-feira, se sexta-feira, se domingo. São todos dias baços.

Com alguma sorte, a vida trata de trazer dias bons. É assim, o velho cliché dos altos e baixos (até é irónico). Mas é difícil reconhecê-los. O teu próprio corpo não parece sentir merecê-los. E a vida não é fácil para ninguém, nós sabemos. E todos temos coisas boas a que nos agarrarmos, mas ninguém disse que era fácil encontrar o caminho de volta quando nos apagam as luzes.

Por tudo isto e por todos os que precisam de uma ajudinha para começar a semana, eu decreto que todas as semanas deveriam começar com uma segunda-feira gloriosa. Um dia de pura tranquilidade, à vontade do freguês, é claro. Recheado de belas doses de bom tempo, de campo ou mar ou montanha, ou o que lá nos faça vibrar. Com direito a comida boa, a tempo para aproveitar e ainda, quem sabe, um pouquinho de trabalho, ou de qualquer exercício mental.

Para mim, hoje foi uma segunda-feira como deve ser, uma segunda-feira como talvez pudesse ter sido aquela. Nunca saberei. Neste caso, incluiu uma caminhada com apenas ar fresco e mar e muita praia, uns mergulhos revitalizantes, um livro novo que me abriu o apetite, umas horitas de trabalho e de volta à praia para não perder um pôr do sol de sonho. E hoje foi mesmo daqueles perfeitos. Tranquila, a saber que todos a quem quero bem estão seguros, saudáveis, a ver a fotografia da minha sobrinha Inês, uma nova vida a iluminar a nossa.

E hoje tinha de escrever. Tinha de registar a segunda-feira em que começo a perder o medo de me sentir feliz, de sentir esperança; a deixar cair o estado de alerta permanente e passar a estar apenas consciente. Hoje foi uma segunda-feira feliz… se a terça-feira tiver de me tropeçar, assim seja!

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