Vontade

me

Às vezes só tenho vontade de voltar atrás.

De voltar aos dias do apartamento, em que tudo era mais pequeno e tão perto.

Aos dias em que subia as escadas e tinha toda a diversão e mimo da vizinha, em que pegava ao colo a minha primeira bebé e rejubilava com o som do riso dela.

Aos dias em que bastava descer as escadas para jogar andebol em pleno corredor do vizinho, fugia do chinelo alheio e ainda tinha a própria professora primária a ajudar-me nos trabalhos de casa.

Era brincar às escondidas com metade do quarteirão e voar por cima do muro do cinema para depois esfolar os joelhos no regresso.

Voltar aos dias em que ir buscar o pão era uma responsabilidade tremenda e, ainda assim, conseguia mandar a broa pelo ar aos saltinhos pela rua. Era ter a mãe do colega de carteira ali mesmo a apreciar a cena, e a apressar-se a comprar-me uma nova para que não me puxassem as orelhas. Dessa guardei sempre segredo.

Era sentir que o mundo era tão perfeito quanto excitante, repleto de aventuras e prostrado aos nossos pés, sem medos nem violências, nem conspirações a cada esquina.

Era viver na ignorância da realidade, imbuídos de um espírito de crença e vitalidade que nenhuma tempestade era capaz de abalar.

Só tenho vontade de voltar aos dias em que descíamos pelo elevador e ia pela mão do meu pai até à escola. Correr como um animal selvagem no recreio e voltar pela mão da professora e mais dois colegas.

Vontade de voltar às aulas de piano da professora Fernanda e dos espetáculos improvisados na sala de estar. Das melodias a ecoar pelas paredes, saídas das teclas amareladas e daquele negro tremendo.

Vontade de voltar às aulas de Inglês ao final do dia, deslumbrada com o pensamento fragmentado em dois, a aprender a pensar de outra forma, a recitar os verbos e músicas que ainda hoje preservo.

O quão importantes esses dias eram, não fazia ideia. O quão únicas aquelas quezílias eram com a minha irmã, só agora percebo.

Que bom seria dar um salto no tempo e visitar-nos às vezes.

Mas melhor ainda é saber que tivemos a felicidade ali nas mãos e nada poderá alguma vez apagar essas memórias.

Uma infância feliz. Que tesouro tão impagável!

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